• Daniele Fernandes

No Amapá, pacientes com câncer enfrentam dificuldades no tratamento nas redes públicas e privadas

Atualizado: 28 de out.

O tratamento de câncer deve ser contínuo. A demora ou a não realização de alguns procedimentos no momento necessário pode causar danos irreversíveis


Por: Daniele Fernandes


Novo prédio da UNACON, Macapá- AP. Foto: Daniele Fernandes


Receber o diagnóstico de câncer não é fácil. Mas, seja qual for o sentimento nesse momento, sempre há esperança pela cura o mais breve possível. Entretanto, muitas pessoas não costumam fazer seus exames preventivos periodicamente e, quando descobrem a doença, muitas vezes já está em estágio avançado.

Após o diagnóstico, o tempo é o maior inimigo. De acordo com cada organismo e o tipo de câncer, a doença pode avançar rapidamente, por isso um tratamento eficaz é o principal aliado na cura dos pacientes oncológicos. Infelizmente nem sempre é o que acontece, as dificuldades enfrentadas na Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), em Macapá, persiste e os pacientes que necessitam de tratamento especializado muita das vezes precisam recorrer ao tratamento fora do estado.

Aviso do Hospital Geral Alberto Lima, HCAL. Foto: Daniele Fernandes


Um exemplo é o serviço de radioterapia, que não é oferecido aos pacientes oncológicos no estado do Amapá. Este tratamento é muito importante em vários casos da doença, por ser o método que tem como objetivo destruir ou impedir o crescimento de células tumorais. Todas as pessoas que necessitam desse método para controlar o avanço do câncer precisam sair do estado.


Lea Learte, paciente com câncer de mama há 5 anos, faz tratamento na rede pública do estado, mas antes precisou sair do Amapá em busca de tratamento contra a doença. Ela foi para Fortaleza, no estado do Ceará.


“Passei dois meses fora. É um custo muito alto pra quem é assalariado, é muito difícil. Eu sei por que eu tive que ir pra fora. Consegui ter a devolução dos custos que tive nesse período pelo TFD (Tratamento Fora do Domicílio), porque eu briguei pelos meus direitos e consegui. Mas muitos pacientes não conseguem ou não sabem dos seus direitos e precisam recorrer a ajuda de terceiros, realizando bingo, pix solidário, etc.”, destaca a paciente.


Paciente oncológica da rede pública de saúde, Léa Learte. Foto: Daniele Fernandes


Léa também relatou outras falhas além de não ter tido acesso a radioterapia em Macapá. “No meu tratamento falhou a minha quimioterapia pela falta de uma capela de fluxo (item apropriado para a manipulação de quimioterápicos) tinha quebrado, que dependia de profissionais de fora virem fazer a manutenção, pois no estado não havia profissionais capacitados. Precisei reunir com outros pacientes para fazermos uma manifestação, pois queriam que a gente fosse embora pra casa sem fazer quimio”, relembra.


Essa falta de estrutura e utensílios para quimioterapia e outros procedimentos que tratam o câncer, retratam o quadro de precariedade vivido no estado do Amapá. As solicitações feitas pelos pacientes deveriam ser atendidas imediatamente, mas se estendem por muito tempo e gerando filas, nas quais muitas das vezes os pacientes que nelas estão, infelizmente, morrem nessa espera sem conseguir tratamento.


“Nem sempre temos na Unacon os remédios básicos, como uma simples dipirona ou o soro para a diluição de outros medicamentos injetáveis. E nem sempre as famílias conseguem comprar por conta própria e suprir a necessidade do paciente”, relata a pedagoga Joseane Dantas, 37 anos, que enfrenta seu terceiro tratamento contra o câncer. Ela também é integrante do Pouva, grupo criado por pessoas que se conheceram na unidade de tratamento e que lutam por seus direitos juntos.


Em resposta a essas questões levantadas pelos pacientes da rede pública de saúde do estado do Amapá, o gerente administrativo da Unacon, Igor Santana, reconheceu os problemas enfrentados e destacou as medidas tomadas para melhorar a situação.

Em 2021, a secretaria do estado fez o investimento e instalou o novo prédio da Unacon. A nova Unacon é um bebê de menos de um ano de idade, então decisões bem difíceis tiveram que ser tomadas e, em meio dessas decisões difíceis, nós ainda permanecemos com um ou outro problema, pontualmente identificados. Nós ainda lidamos com desabastecimento de medicamentos oncológicos, mas a grande questão é que esses intervalos de desabastecimento diminuíram vertiginosamente”, afirma o gerente administrativo.


A ausência de um protocolo adequado e exames mais específicos para esses pacientes, mostra o quanto a rede pública de saúde não tem capacidade para atender todos os pacientes com câncer que procuram tratamento no Amapá. E não é somente a rede pública, a rede privada também está sobrecarregada e com aparelhos ineficazes.


“Eu senti um nódulo bem pequeno no autoexame, estávamos no meio da pandemia, ainda assim fui em uma clínica particular de Macapá, em uma clínica especializada em oncologia. Por ser um carocinho e para tirar todas as dúvidas, eu imaginei que uma clínica oncológica estaria apta a fazer isso. Eu fiz uma mamografia e depois ultrassom, falei pra médica do nódulo, então ela pediu pra repetir a tomografia e ainda assim os equipamentos da clínica não acharam nada que fosse sólido e acharam que não era um tumor”, relata a jornalista e professora na Universidade Federal do Amapá, Cláudia Assis, 40 anos.


Ela continuou em busca por respostas e um diagnóstico exato em mais duas clínicas particulares no estado. Enquanto isso, o nódulo em sua mama ia crescendo. “Fiz novamente os exames e também não conseguiram enxergar que era um tumor, mas deu BI-RADS 4, que é obrigado a fazer biópsia, mas no laudo estava falando que nada foi encontrado. Quando o médico observou e achou que era mastite e ficou enrolando. Eu implorei para ele fazer uma biópsia, eu pedi para ele e, depois de muitas tentativas para ele tirar essa dúvida, então ele fez a biópsia mandando pra um laboratório que ele disse ser de confiança, e esse o meu plano de saúde não cobria, então eu tive que pagar”, relembra a professora.


Isso é o que ocorre muitas das vezes com os pacientes oncológicos do estado, são muitas batalhas enfrentadas além da principal delas, a luta contra o câncer, que requer pressa e um olhar minucioso. Após a biópsia, Cláudia Assis teve o seu diagnóstico, câncer de mama, optou por sair do Amapá e buscar tratamento em São Paulo, porque seu tumor realmente estava crescendo rápido. Na biópsia foi medido com mais ou menos 2 cm, medido de fora porque os equipamentos não pegavam o tamanho exato. Quando Cláudia chegou em São Paulo para tratar, um mês e meio depois, o tumor já estava com 9,8 cm.


“Eu busquei tratamento fora do estado, porque eu tenho convicção que se eu tivesse ficado no Amapá, com a gravidade e com a velocidade do crescimento do tumor que eu tinha, eu ia morrer. Os equipamentos de mamografia, ultrassom e todos os outros exames aí, nada conseguiu checar o tumor com exatidão. Já aqui em São Paulo, o tratamento que eu estou recebendo é um tratamento de ponta”, destaca a professora.


Cláudia Assis, recebendo quimioterapia em São Paulo. Foto: Acervo pessoal


Em consequência de situações como essas, existem muitos outros casos de pacientes oncológicos no estado do Amapá. E em meio a tanta angústia, existe uma equipe multiprofissional que tenta amparar essas pessoas que enfrentam essas batalhas diárias. É o caso do acolhimento psicológico feito todas as sextas-feiras na Unacon para pacientes e seus familiares.


Nessas reuniões, os doentes recebem atendimento em grupo e individual de uma equipe especializada. “A troca de experiências, as pessoas que estão em sofrimento percebendo que há possibilidade de cura, olhando pra sua condição humana e perceber que não está sofrendo sozinha, que o outro que está ao seu lado também está passando por isso e vencendo aos poucos, ameniza, é como um alívio”, conta a psicóloga clínica e hospitalar Regina Frota, que coordena essas reuniões semanais.


Atendimento em grupo na Unacom, guiado pela psicóloga Regina Frota. Foto: Daniele Fernandes


Terapias como essa reforçam as esperanças desses pacientes. Esse suporte psicológico faz toda a diferença durante o tratamento oncológico. É uma jornada desafiadora e é natural surgir um misto de sentimentos, alguns tão negativos que podem interferir diretamente na adesão do tratamento e qualidade de vida do paciente. A saúde mental também é fundamental durante esta jornada, que influencia diretamente nos resultados. Portanto, um paciente e seus familiares que fazem parte e aceitam esse tipo de atendimento, colaboram não apenas com o bem-estar emocional, como também com novas perspectivas para controlar o avanço da doença.



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