• Lorena Lima

Mulheres indígenas lutam contra o Marco Temporal

Recurso Extraordinário 1.017.365 que tramita no STF pode definir a história dos Povos Indígenas no Brasil.


Mulher indígena no acampamento em Brasília. | Foto: Instagram @mídianinja

Desde o dia 22 de agosto, a delegação de 43 pessoas do Amapá e Norte do Pará estão em Brasília para acompanhar o julgamento do Marco Temporal. A tese defendida pelo governo e por ruralistas determina que indígenas que não estão nas terras destinadas a eles, como prevê a Constituição de 1988, não poderão reivindicá-las, afetando cerca de 300 processos em andamento.

Delegação indígenas do amapá e Norte do Pará. | Foto: Luene Karipuna

Luene Karipuna, acadêmica indígena, está no acampamento em Brasília durante 10 dias, e explica sobre o maior movimento indígena brasileiro: “eu me sinto no direito de continuar lutando, pelo direito do meu povo. Direito de manter a gente no nosso território e pelo direito de gritar que em 1988 não iniciou nossa história, mas sim iniciou a conquista de direitos dos povos indígenas. Essa luta de hoje não é em vão, é para manter os nossos parentes dentro de seus territórios, é olhar para as terras indígenas em Oiapoque, é olhar para os meus pais, para os meus sobrinhos, é poder de alguma forma preservar o futuro dessa geração que ainda vai vir”.

Acampamento indígena acompanha julgamento do Marco Temporal em Brasília. | Foto: Instagram @daldeiaoficial

Não está sendo fácil para Luene Karipuna e todos os povos ainda presentes, com repressão da polícia usando spray de pimenta durante caminhada até o STF no primeiro dia de setembro, e durante o confronto um dos apoiadores do Presidente Jair bolsonaro roubou bandeiras que estavam escrito ‘Fora Bolsonaro’. “A gente vê as pessoas aqui ficando em barraca, sem comer direito, sem dormir direito e com medo de ser atacados”, relata a acadêmica.

“Não desistir de gritar que nós estamos aqui, que aqui o território, o Brasil é nosso. A gente não é nenhum ladrão, estamos lutando por um pedacinho de terra que nos resta, porque a maior parte foi destruída, e ainda está sendo destruída, a maior parte está na mão de pessoas que nem sabem de onde vem a própria comida. É a esperança de que a gente tenha paz, que pelo menos deixem a gente viver no nosso território tranquilo, da maneira que a gente se sente bem e acha correto. Nem todo mundo quer essa vida aqui da cidade, e se eu pudesse não estaria aqui, mas estaria na minha aldeia com a minha família” desabafa Luene Karipuna.

Para a acadêmica, uma das coisas que mais a tocou foi a presença dos advogados indígenas dentro participando desse julgamento. “Esses dias aqui me dão a esperança de poder estar fazendo a diferença para o meu povo, de poder continuar lutando e poder escrever a nossa história por nós mesmos. O que mais me tocou foi a união de povos diferentes, de lugares diferentes, de culturas diferentes, de costumes diferentes. Toda a vez que a gente se levantava para sair, caminhar e gritar na rua eu sentia um arrepio no corpo inexplicável, a gente acaba sentindo a nossa ancestralidade de luta, de guerra, de sofrimento. Tendo aproximadamente 6 mil indígenas acampados a mercê de serem atacados por pessoas que não nos entendem e não nos respeitam. Há uma união principalmente na nossa delegação, de cuidar um do outro, e isso foi muito forte”, comenta Luene.

Mulheres se emocionam diante da manifestação indígena em Brasília. | Foto: @mídianinja

“Sem contar que a saudade de casa, e como a gente valoriza todo mundo ao nosso redor e também a minha mãe mandando áudio de Oiapoque, os parentes mandando força para que a gente continue, dizendo para nós não desistirmos. E como parte da delegação do Amapá e Norte do Pará já estava com a passagem marcada para voltar, mas os 18 que falaram ‘não, a gente vai ficar, permanecer’, todo mundo tá unido e sendo apoio tanto psicológico quanto físico”, ressalta.

Para as pessoas que não conhecem a realidade indígena Luene aconselha: “Procurem saber e conversar com as pessoas que realmente conhecem a nossa realidade com a gente mesmo. Que não nos julgue, porque nós todos somos diferentes e todos nós precisamos de respeito. A gente não está aqui para fazer baderna, estamos aqui para lutar pelo que é nosso, e principalmente pelo respeito. Respeito de ser povos indígenas, respeito de ser filhos dessa terra”.

Arte mulheres indígenas. | Foto: Instagram @apiboficial

A liderança indígena Simone Karipuna relata sobre estar em Brasília: “. Lutar está em nosso Sangue. Nascemos sabendo que temos que ser resistentes, resilientes e guerreiros. Vivemos hoje, um dos piores ataques de todos os tempos aos povos indígenas e como liderança mulher indígena, sei que o nosso povo não pode se calar. Nós estamos aqui justamente para somar forças, lutar e gritar em união com nossos parentes de outros povos, para ganhar visibilidade para o movimento indígena brasileiro. Para falar para você e para o mundo que nós povos indígenas existimos e exigimos respeito a nossa vida, a nossa história, nossa cultura e aos nossos territórios. Indignação! Desrespeito a nossa história, as nossas ações. Nós nos sentimos marginalizados, invisibilizados. Mas entendam que, para nós, esse ataque só reforça a necessidade de unirmos forças para lutar por nossa existência”.


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