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Especialista esclarece dúvidas sobre o COVID-19


Foto: Arquivo pessoal


Por Hendrew Rodrigues e Maian Maciel


No dia 30 de Janeiro de 2020 a Organização Mundial de Saúde (OMS) manda um alerta mundial sobre um vírus altamente contagioso após as autoridades chinesas perceberem uma grande procura de pessoas aos hospitais com problemas respiratórios e com sintomas parecidos com uma gripe. Esse vírus é o COVID-19, conhecido popularmente como o novo Coronavírus, teve seu início na província de Wuhan na China e se espalhou por todo o mundo.


Devido a proporção global que o vírus alcançou, bastante dúvidas foram geradas pela população, e o enfermeiro Rubens Alex de Oliveira Menezes, doutor em Biologia de doenças infecciosas e parasitárias, pela Universidade Federal do Pará (UFPA), concedeu uma entrevista à Agência de Comunicação Experimental da Unifap para responder alguns questionamentos sobre a nova pandemia. O especialista respondeu principalmente questões relacionadas a forma de contágio; precauções que devem ser tomadas para não contrair o novo coronavírus e também quais medidas devem ser tomadas pelas autoridades.



Gráfico representando os índices de infectados pelo coronavírus


Agcom: O COVID-19 alcançou a Amazônia há 7 dias, quando surgiu o primeiro caso no Pará, depois no Amazonas, no Amapá, etc. Como o clima da região, o calor e as chuvas do período de inverno dão condições ao vírus de estender ou restringir o poder de contaminação?


Rubens Alex: O clima e a temperatura podem não ter um papel tão fundamental assim na disseminação de uma doença, sendo necessário avaliarmos com calma. No caso do Covid-19, a temperatura não bloqueia o vírus, mas o frio pode piorar transmissões, já que as pessoas ficam em ambientes fechados. Adicionalmente, observamos que o Covid-19 tem se espalhado principalmente em países do hemisfério norte, que atualmente está no inverno. É importante destacar que as cidades que apresentam um trânsito constante de pessoas, voos internacionais e uma densidade populacional grande, além de estarem no período de inverno, criam condições ao vírus de estender o poder de contaminação.


Agcom: Porque o mês de abril está previsto para ser o mês de pico (maior contaminação) do vírus? Esse é o período para o Amapá também?


R.A: A velocidade de propagação do novo coronavírus no Brasil repete o padrão dos países que mais sofrem com o avanço da covid-19, demonstrando em gráficos toda essa dinâmica, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O crescimento de casos confirmados segue um ritmo parecido com o de países como Alemanha, França e Reino Unido. Comparar o avanço epidemiológico em países diferentes, no entanto, não é uma conta exata, além da origem dos focos iniciais de cada nação poder interferir nos cálculos. Entretanto, é importante destacar que a mitigação e achatamento da curva no gráfico com casos do novo coronavírus justifica a importância da quarentena e do distanciamento social para diluir a ocorrência da doença e não sobrecarregar o sistema de saúde. Adicionalmente, esses estudos da OMS e do Ministério da Saúde demostram que o mês de abril está previsto para ser o mês de pico (maior contaminação) do vírus, sobretudo com a chegada do outono e do inverno, estações que favorecem a incidência de outros tipos de infecções pelas vias aéreas.

Esse período, em teoria, o número de casos do Covid-19 seria ascendente e espiral em abril, maio, junho. Conforme o ministro da Saúde, o país irá vivenciar um período de estresse entre 60 a 90 dias, para quando chegarmos ao fim de junho, julho, entraremos no platô. Agosto, setembro seria o retorno, desde que a população construa a chamada imunidade de mais de 50% das pessoas. Diversos especialistas também já esperavam que houvesse picos da doença em outros países além da China, mas não era possível prever quando isso ocorreria. Ou seja, com base no que já ocorreu em epidemias anteriores, dá para estimar o que pode acontecer na trajetória do vírus, mas não quando ela vai acabar.


Agcom: Qual sua hipótese sobre a recuperação social desta crise epidemiológica no nosso estado?


R.A: Vai depender do quantitativo de pessoas infectadas no estado e das pessoas que evoluírem para as formas grave da doença. A recomendação do Ministério da Saúde é manter isolamento social (tudo fechado e sem funcionamento). Entretanto, essas medidas não são sustentáveis em longo prazo já que o dano social e econômico seria sem precedentes. O que o país e o estado precisam é de uma "estratégia de escape", ou seja, uma maneira de eliminar as restrições e conseguir voltar ao normal. Mas, o coronavírus não vai desaparecer se forem suspender as restrições que estão retendo o vírus, os casos inevitavelmente aumentarão. Realmente temos um grande problema em saber qual é a estratégia de escape, sendo um enorme desafio científico e social. Como hipótese, existem basicamente três maneiras de sair dessa situação e da capacidade do vírus se espalhar:


  • Vacinação;

  • Quantidade suficiente de pessoas desenvolvendo imunidade por meio da infecção;

  • Mudar permanentemente nosso comportamento e nossa sociedade.


Agcom: O que seria necessário no sistema de saúde para conter ou combater o COVID-19?


R.A: Saúde é um setor com imensa necessidade de gestão profissional e não de gestão política. Diversos estudos vêm trabalhando com afinco para profissionalizar a área e garantir que esse espaço seja ocupado por quem entende do assunto. A Gestão em Saúde, tocada por profissionais capacitados e habilitados, contribuirá muito para a melhoria da gestão e evitar os problemas graves que a saúde enfrenta atualmente. Não há dúvidas, portanto, de que a gestão eficiente é interessante para todos: para a sociedade, que receberá serviço público de qualidade, e para o governo, que economizará muito mais com o uso assertivo dos recursos.


Adicionalmente, são necessários no sistema de saúde para conter ou combater o COVID-19 mais investimentos em unidades de saúde, hospitais e profissionais de saúde com infraestrutura e condições de trabalhos adequados, respectivamente. Um dos pontos essenciais para seu controle (COVID-19) é o financiamento de pesquisas, tão desprezadas em nosso país, no momento. Esse acolhimento e suporte aos pesquisadores são essenciais nos estudos preliminares sobre vacinas, tratamentos, epidemiologia, genética e filogenia, diagnóstico e aspectos clínicos da doença, potencializando o desenvolvimento de estratégias de diagnóstico mais célere e do acesso ao tratamento prático com medicamentos eficazes contra o novo coronavírus.


Agcom: Qual a recomendação de prevenção que você pode dar para as pessoas que saem em transporte público diariamente?


R.A: Como recomendação, indico limpar as mãos com frequência, principalmente, após tocar superfícies que possam estar infectadas ou estar em locais com bastante fluxo de pessoas. Cuidados básicos devem ser adotados antes, durante e depois de usar transporte público, como higienizar as mãos e evitar tocar olhos, nariz e bocas. Adicionalmente, é importante o uso de álcool gel (sempre que necessário), para evitar não só o coronavírus, mas também outras doenças. Outra recomendação importante é também, cobrir a tosse com a parte de dentro do cotovelo e manter uma distância mínima de 1 a 2 metro de pessoas que estejam espirrando ou tossindo.


Agcom: Estamos passando por um tempo de escassez de alguns produtos de proteção, máscaras, álcool em gel, luvas; esses materiais são prioritários em que circunstâncias e para que pessoas? Quem precisa e não tem, como poderia fazer?


R.A: Conforme recomendação e orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso desses insumos (máscaras, álcool em gel, luvas) são prioritários e fundamentais para os profissionais de saúde que trabalham em contato direto com pacientes e/ou no atendimento aos casos suspeitos de covid-19. A falta desses materiais aumenta ainda mais o risco de contaminação dos profissionais que estão na linha de frente do atendimento a casos de coronavírus. Adicionalmente, o uso da máscara é indicada para os casos suspeitos e/ou confirmados de coronavírus, imunodeprimidos e a pessoa que apresentam sintomas respiratórios, como tosse, espirros ou dificuldade para respirar, o item sozinho não protege contra o vírus e só é efetivo se for associado à lavagem frequente das mãos com água e sabão ou higienização com álcool em gel, que são as principais recomendações para evitar o contágio, assim como evitar aglomeração de pessoas e seguir o protocolo respiratório (ao tossir ou espirrar, cobrir a boca e o nariz com o cotovelo flexionado ou com um lenço).


Para a população saudável, estudos não demonstraram um benefício claro do uso de máscaras e por este motivo há a orientação para que não se compre o produto em grandes quantidades, já que este ato pode fazer com que falte o item para as pessoas que realmente precisam. No entanto, caso a pessoa queira utilizar a máscara como uma forma a mais de proteção, sempre aliada as demais recomendações do Ministério da Saúde, a máscara de pano é uma solução. Este tipo de máscara é bastante utilizado por pacientes em tratamento de câncer que se submetem a quimioterapia, que baixa a imunidade, e pode ser feita em casa. O recomendado é que se use tecido de tricoline, que é 100% e resistente, mas ao mesmo tempo é leve e permite que a pessoa respire sem sufocar. O tecido deve ser cortado de acordo com o modelo de máscara de proteção desejada. Antes de utilizar, lave a máscara com sabão neutro, este item deve ser utilizado por até duas horas e trocado após esse período. É importante destacar que medidas simples de lavagem das mãos, cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar com um lenço de papel e jogar no lixo, evitar tocar olhos, boca e nariz com as mãos sujas, evitar contato próximo com pessoas doentes e isolamento social nesse período são as medidas preventivas da disseminação da doença.


Agcom: Além da higienização das mãos, que outros procedimentos de higienização, alimentação ou cuidados com roupas e chinelos podem ser tomados? É verdade que consumir bebidas e alimentos quentes pode combater o Coronavírus?


R.A: Neste momento, uma das medidas mais eficazes e mais recomendadas por especialistas para evitar a propagação do novo coronavírus é o isolamento social. Adicionalmente, recomenda-se que não se utilize bijuterias, anéis, colares, pulseiras, brincos e relógios. Esses adereços são muito difíceis de fazer a higiene periodicamente, até porque eles têm reentrâncias e estruturas que são complexas de serem higienizadas. Além disso, esses acessórios ficam em contato com a pele, e quando a gente sai, entram em contato também com outras pessoas e outros objetos. Por este motivo essas bijuterias podem se tornar uma fonte de propagação da infecção. Caso esses acessórios sejam utilizados, o ideal é que, ao chegar em casa, esses objetos passem por uma higienização adequada com álcool 70%. A limpeza com o produto também é válida em caso de óculos de grau, bolsas e carteiras. Com relação a roupas e sapatos, o ideal é que, quando possível, o calçado deve ser retirado na chegada em casa. A mesma recomendação vale para toda a roupa do corpo. Depois disso, deve-se e separar esses itens para lavar. É um momento de exceção em que todas as medidas intensivas devem ser tomadas para quebrar a cadeia de transmissão.


Com relação ao consumo de bebidas e alimentos quentes, até o momento não temos nenhum estudo científico que informa que essa medida é eficaz no combate ao Coronavírus. Além disso, a temperatura do corpo humano é de pelo menos 36°C, assim, beber água a uma temperatura de 26 a 27 °C não traz benefício algum em relação à prevenção ou eliminação do coronavírus (COVID-19), uma vez que no corpo humano o vírus tolera temperatura de pelo menos 36°C. Até o momento, não se tem indícios de que alimentos possam transmitir o coronavírus. Pelo que se tem de conhecimento, eles são transmissão entre humanos (de diversas maneiras, como pelo contato, gotículas ou fezes). Os coronavírus foram detectados nas fezes de certos pacientes, portanto, atualmente não podemos descartar a possibilidade de transmissão ocasional de manipuladores de alimentos infectados. Entretanto, podemos afirmar que o risco da transmissão por alimentos contaminados poderá acontecer caso o alimento tenha sido exposto à secreção respiratória de uma pessoa contaminada. De toda forma, a higienização correta (lavagem e desinfecção) pode, sim, ajudar a eliminar o novo coronavírus dos alimentos de origem vegetal, o cozimento em altas temperaturas e a utilização de hipoclorito de sódio podem ser empregados para evitar a contaminação.


Agcom: Em 2002, apareceu um coronavírus no sul da China (Cantão). Alcançou 29 países e morreram 800 pessoas. Anos depois, o COVID-19 alarma a população mundial. Neste sentido, há o risco do vírus causador da COVID-19 sofrer algum tipo de mutação, implicando agravamento da pandemia ou reinfecção?


R.A: Há muito para se aprender sobre a transmissibilidade, a gravidade e outros recursos associados à COVID-19 e as investigações estão em andamento. Entretanto, quando um vírus é introduzido em uma espécie, ele costuma causar doenças mais graves no início, mas depois passa por um processo de adaptação e se torna mais brando. Do ponto de vista evolucionário, ele precisa transmitir seus genes adiante, sendo organismos propensos a sofrer mutações, o que permite que eles saltem de uma espécie para a outra, como teria ocorrido com este coronavírus. Mas essa característica também permite que eles se tornem mais bem adaptados ao organismo humano e menos agressivos, aumentando as chances de convivermos com eles.


A possibilidade de uma pessoa ser infectada duas vezes ou mais, até então, acreditava-se que isso não fosse possível, tendo em vista o que se sabe sobre outras infecções virais respiratórias. Mas, informações divulgadas por autoridades da China e do Japão lançaram dúvidas sobre isso: algumas pessoas que já haviam se recuperado da doença foram diagnosticadas novamente com o vírus, sendo ainda muito cedo para afirmar se isso é possível ou se houve falha de diagnóstico.

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