top of page
  • Foto do escritorAGCom

Em entrevista, diretora e roteirista Ana Vidigal se mostra esperançosa com o cinema regional

A produtora é também uma das principais defensoras das políticas públicas para o audiovisual no Amapá.


Por Fabiana Saraiva e Luhana Baddini

Ana morou em Belém, Brasília e Parintins antes de se mudar para o Amapá. Foto: Arquivo pessoal

Ana Vidigal é produtora paraense, mas atua no audiovisual no Amapá há mais de 10 anos, incluindo trabalhos na Secretaria de Cultura, que trouxe o primeiro edital voltado para o Amapá. Ela veio para cá com seu esposo, que foi convidado para trabalhar em uma produtora na cidade. Chegou com os dois filhos no dia 09 de dezembro de 2000 e desde então criou raízes nas Terras Tucujus.


Em entrevista, Ana Vidigal se mostra esperançosa com o cinema regional, comenta sobre editais culturais e conta como iniciou sua trajetória na sétima arte.


Qual foi seu primeiro contato com cinema?

Foi em 1990 em Belém do Pará. Eu fazia teatro no Grupo Experiência e tava fazendo espetáculo “A menina do Rio Guamá”. Eu tinha uma personagem, aí eu fui convidada para participar de um teste para o filme “Brincando nos campos do Senhor” e fui gravar. No dia que eu entrei pela primeira vez no set de cinema, descobri que era aquilo que eu queria para a minha vida. Eu me apaixonei, foi amor à primeira vista.


O que fez você se perceber artista?

Desde pequena sempre tive tudo que se relacionava à arte. Na escola, eu queria participar de tudo, Dia das Mães, Dia dos Pais, sabe? Todos os eventos que tinham alguma coisa a ver com arte eu queria estar, eu queria participar. Aí comecei a fazer teatro muito cedo na escola e na pré-adolescência. Acho que eu devia ter uns 11 anos, 12 anos, eu comecei a participar de grupos de teatro independente tanto em Belém quanto em Brasília, também em Parintins, onde morei. Aí foi sempre me rodeando, mas naquela época era difícil. Quando eu cheguei em Belém conheci o Grupo Experiência. Eu comecei a fazer um quadro de comédia na TV Cultura, o Clipe Piada, mas eu já fazia produção de teatro. Quando eu não estava atuando, eu estava na iluminação, na contra regra e a gente fazia de tudo um pouco na década de 80.


E quais foram suas primeiras inspirações?

São tantas! “Asdrubal Trouxe o Trombone”, um espetáculo que tinha Regina Casé e Fernando Guimarães. Tem também Zé Celso, assim como Geraldo Sales, Nelson Rodrigues, grandes inspirações, e também Zenoaide, que são dramaturgos que mexem muito comigo. Stanislavsky é uma referência na minha vida, a teoria dele, de você interpretar o subtexto, é uma grande inspiração.

Quais foram suas experiências no cinema que mais marcaram sua profissão?

“A Rosa” marcou muito, foi a primeira produção que nós fizemos aqui de ficção, que eu agradeço muito aos nossos parceiros, que na época deu o equipamento e abraçou o projeto. O filme “A Rosa” foi um divisor de água para o audiovisual aqui no Amapá, muita coisa marcou nesse projeto. Também “A brasileira linda”, que é um documentário que eu tenho um carinho muito grande. A Mostra de Cinema Direitos Humanos, há dez anos que nós produzimos, que sim, só me trouxe momentos mágicos, momentos assim que eu trago no meu coração. E claro a Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), que me trouxe pessoas que são muito importantes na minha vida até hoje.


Quais suas principais produções?

Todas são muito importantes. Mas “A Ponte e o Tempo” é o projeto que eu estou debruçada no momento, mas se é pra falar qual é a mais importante produção na minha vida são meus filhos. A minha família, sem dúvida nenhuma, eles são o bálsamo e ao mesmo tempo é um néctar que me acende todos os dias. Assim, meus filhos são as minhas maiores produções e inspiração para eu continuar. São tantas produções, sabe?


Como mulher e nortista, quais são as maiores dificuldades que você enfrenta no ramo do audiovisual?

Reproduzir e colocar a sua ideia, o seu roteiro, materializar e produzir a tua obra. Principalmente nós que estamos aqui, territórios periféricos como Norte, nós ainda somos territórios periféricos e a Agência Nacional de Cinema (Ancine) fala muito da ideia da democratização, mas eu ando me questionando sobre essa tal de democratização que ainda não chegou para nós. Ainda está tudo muito devagar e quase parando, como, por exemplo, no ano passado que a gente teve um problema sério, do qual ficamos quatro anos parados e totalmente desarticulados. No passado, quando saíram os primeiros selecionados, não tinha ninguém do Norte e na mesma hora a ministra Margareth gritou. Nós fizemos uma carta, né, aí ela gritou e assim se escutou e tiveram que rever esse posicionamento e essa seleção. Depois de uns dois meses, eu acho, conseguimos a visibilidade para nós no edital voltado para o Amapá. Então, na minha opinião, a maior dificuldade que nós temos é o financiamento. É políticas públicas de fato estabelecidas e que têm continuidade para o setor audiovisual e de indústria criativa.


Quais as políticas públicas que já existem no Estado para o cinema?

Nós estamos com expectativa enorme para a Lei Paulo Gustavo, estamos com a expectativa. Esse diálogo tem que ser constante para construir essa política pública de desenvolvimento mesmo para audiovisual e um plano de desenvolvimento para o setor, como qualquer setor da economia tem o seu avanço a partir de um plano de desenvolvimento e a indústria criativa do audiovisual, sem dúvida nenhuma, é o maior de toda a indústria criativa em qualquer país. Agora, depois da pandemia, não tem volta! O mundo mais do que nunca é audiovisual, então nós precisamos regulamentar imediatamente a questão dos streamings no Brasil. Rever além da cota de tela. A Ancine precisa, urgentemente, voltar-se aos editais de produção regionais. Isso é fundamental regulamentar o vídeo on demand (VOD), isso porque todos os países desenvolvidos têm a sua regulamentação. O ex-governador Valdez Góes foi o primeiro gestor que realmente trouxe o fundo setorial para cá, mas agora com a Lei Aldir Blanc 2, da qual todos os segmentos da cultura vão ter que ter o seu plano setorial e o sistema estadual de cultura vai promover isso. Estou muito esperançosa com a retomada do Minc [Ministério da Cultura], da qual a Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2, sem dúvida nenhuma, vêm com essa premissa de estabelecer a cultura no país. Isso, sem dúvida nenhuma, vai ser o divisor de águas para a cultura brasileira, não só Amapá, mas para o Brasil.


Você tem em mente alguma política que contribuiria com os assuntos de gênero na área?

A formação. Eu percebo que essa questão de gênero, que está sendo muito discutida na sociedade, foi por séculos invisível. Eu não consigo visualizar uma política de gênero ou qualquer tipo de política de transformação da sociedade que não passe pela educação. Acho que é urgente e fundamental que qualquer política pública de transformação da sociedade ela tem que começar ali na base, que é na criança, que é na escola, que é no ensino fundamental, que é no ensino médio. Uma coisa você vai ver daqui a um tempo, uma geração com uma outra mentalidade, outra atitude diante das diferenças, e eu não digo só as diferenças sexuais. Eu digo as diferenças mesmo porque a gente também tem a questão da etariedade. A gente percebe isso na política pública para o gênero, que é fundamental, mas ela tem que estar ligada com educação, senão vai ficar só no eixo, no gueto [...]. Daqui a 10 ou 15 anos, nós vamos ter uma geração muito mais generosa diante das diferenças e diante das necessidades.


O que você acha que já evoluiu no cinema nortista? Pode pontuar as falhas?

No Norte ele está evoluindo e tem muita gente boa fazendo audiovisual. É inegável não olhar para o Pará, eu sou paraense e eu tenho pares lá no Pará. Tem pessoas muito importantes para o audiovisual brasileiro como Amazonas, também o Amapá. Olhando essa nova geração, nós temos promessas do audiovisual porque o que nós precisamos é de oportunidade. Eu acho complicado falar nomes porque eu posso esquecer, mas são muitas pessoas que eu conheço, muitos realizadores que eu gosto demais e na minha opinião nós precisamos de formação. Nós precisamos de capacitação e nos debruçar no conhecimento das nossas políticas públicas nacionais, que existem e que poucas pessoas conhecem. Eu acho que a formação é fundamental, ainda mais na nossa área, porque nós andamos eternamente de mão dadas com a tecnologia, com a inovação. Falar em audiovisual é falar em inovação todo dia. Está tudo na técnica e principalmente quando a gente olha o audiovisual enquanto indústria.


Como é o feedback do público?

Nas exibições, eu gosto muito de exibir e fazer parceria com a escola, e com a escola com editais que promovem a distribuição, né, eu tenho Sesc aqui é o que eu conheço. Tem o Sesc nacional e o Sesc também local, que tem um edital que você coloca o seu filme, se for aprovado, e aí eles licenciam, passa em outros estados e os cineclubes são fundamentais para a produção independente. É um trabalho de formiguinha, eu gosto muito de falar uma coisa assim que eu ultimamente, de um tempo para cá, eu tô me debruçando na distribuição de impacto. A distribuição de impacto para mim ela é uma janela, sabe? Porque às vezes a gente fica muito engessado, “não, eu quero que o meu filme passe então na sala de cinema”, mas tem outras formas também de distribuir esse filme e aí tem a questão dos streamings, tem a questão da própria plataforma do YouTube, mas eu ando debruçada nessa distribuição de impacto. E aí não tem para onde correr, é construir pontes. Essa tua possibilidade que o mundo virtual te deu, te dá de construir essa rede.


Qual o seu maior sonho como cineasta?

Que o cinema do Norte decole. Que a gente deixe de ser invisível, que o público vá para os cinemas assistir o cinema brasileiro: esse é o maior sonho. É que as pessoas saiam de suas casas para ver o cinema brasileiro como ela sai para ver a Marvel e para ver a Barbie. Esse é o meu maior sonho, de ver o cinema brasileiro realmente decolando, seja na sala de cinema, seja na Globoplay, seja na Amazon Prime, na Netflix. Mas na sala de cinema principalmente, porque a sala de cinema tem essa magia da caixa preta. Então, o maior sonho é ver as pessoas saindo de casa para ver o nosso cinema.


O que você espera do cinema amapaense?

Se depender dessa geração, vai surpreender o mundo, viu?! Porque nós temos tudo para surpreender, nós somos grandes por natureza, temos muita coisa para contar. Eu percebo que tem uma nova geração aí sedenta para fazer e eu também percebo que nesse momento que nós estamos vivendo, os gestores que estão aqui neste momento, a nível nacional e a nível estadual, que as políticas públicas vão ser estabelecidas para nós, porque não tem para onde correr. A gente percebe que a semente foi lançada e ela está sendo regada e ela vai dar frutos. Não tem como! Faz parte! Você planta, você colhe. Estamos plantando sementes muito bonitas, que estão vindo da nossa história, da nossa alma e dos nossos ancestrais e elas estão indo com toda essa força que a gente tem. A gente vem falando disso, vem desejando e eu não tenho dúvida nenhuma, eu vejo um futuro muito bonito para nós.


Conheça um dos trabalhos de Ana Vidigal

Curta-metragem espírita, sobre o aborto e o suicídio, intitulada "Agora... já foi", que conta a história de um casal de adolescentes que descobre uma gravidez indesejada. Este curta-metragem foi premiado como a melhor direção e melhor filme no V Festival de Cinema Transcendental, em 2015, em Brasília, Brasil. Roteiro e direção são de Manuela Oliveira. A preparação do elenco foi de Thomé Azevedo. Direção de produção de Ana Vidigal e produção executiva de Felipe Menezes.


*Entrevista produzida na disciplina de Redação e Reportagem II, ministrada pelo professor Alan Milhomem.


0 comentário

Kommentare


bottom of page