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Criança que espera há dois anos por transplante de fígado receberá órgão de amapaense

Atualizado: 30 de nov. de 2022

Em tratamento desde 2020, a criança de 7 anos aguarda em São Paulo pela doação.


Por: Charles Campos e Jeanne Maciel


A doação deve ocorrer ainda este mês em São Paulo. Foto: arquivo pessoal.


Foi no município de Grajaú, interior do Maranhão, que Derick Pereira, na época com apenas 5 anos, passou pela primeira de muitas unidades de saúde. Ele faz parte dos 2.006 pacientes que esperam um transplante de fígado em 2022, segundo dados do Ministério da Saúde, e, agora, encontrou uma esperança do outro lado do país: no Amapá.


O pequeno possui colestase crônica, uma condição que leva à interrupção do fluxo da bile do fígado ao duodeno. Taynan Apinage, mãe de Derick, conta que nos dois últimos anos esteve em Imperatriz, Teresina, São Luís e, desde o final de 2020, está morando em uma casa de apoio em São Paulo para tratar a doença do filho. “Chegamos em dezembro de 2020 e nas consultas já disseram a necessidade urgente de fazer um transplante. Aí começou a correria por um doador”, disse a mãe do garoto, que agora tem 7 anos.


Taynan, o avô do menino, uma amiga da família e dois outros voluntários tentaram ser doadores, mas não puderam. O pai, mesmo sabendo do risco de vida da criança, se recusou a passar pelos exames. “Abandonou o Derick”, lamentou Taynan.


Mas em setembro deste ano tudo mudou. A esperança do fim de uma longa espera estava há 2664 km de São Paulo, em Macapá. Era um dia normal de trabalho quando o jovem Mateus Furtado, 22 anos, conheceu a história de Derick.


Uma prima do jovem, que fazia o tratamento do filho em São Paulo, conheceu Taynan na casa de apoio e a situação de ambas resultou na amizade. “Ela veio aqui no salão e na conversa me falou da condição dele, perguntou meu tipo sanguíneo”, contou Mateus.


Eu falei que poderia e teria coragem de doar. Era uma coisa que, se fosse no meu caso, eu gostaria que alguém tivesse essa boa atitude por mim”. E isso chegou perto de acontecer com a mãe do rapaz, que tem problemas cardíacos e quase precisou de um transplante. Ele diz que essa foi uma das motivações para seguir com a doação.


O amapaense conversou pelo WhatsApp com Taynan e com as médicas de Derick sobre o procedimento e em outubro viajou para São Paulo para fazer os exames e conhecer o menino. “A gente até saiu para se divertir”, comenta alegre.


Por ser um órgão que se regenera, doar parte do fígado não traz prejuízos à vida de quem doa. “Durante esse tempo que estou em São Paulo, já vi umas 10 crianças serem transplantadas e ficarem bem, mas também vi muitas crianças que perderam a vida esperando”, relatou a mãe de Derick.

Mateus deve viajar novamente à São Paulo para realizar a cirurgia. Foto: Arquivo pessoal.


Quando encontrou Mateus pessoalmente, Taynan disse que “toda a perspectiva e expectativa a respeito dele mudou”, a possibilidade de ter um doador era cada vez mais real. Por sorte, todos os exames foram aprovados, Mateus só precisaria de uma autorização judicial.


A doação entre vivos é possível para órgãos como rins, que são duplos, parte do fígado, parte dos pulmões e medula óssea. O doador vivo deve possuir maioridade, ser capaz juridicamente e concordar com a doação. Segundo a Lei nº 9.434/97, que dispõe sobre os processos de transplante de órgãos, a doação é permitida para cônjuge ou parentes consanguíneos até o 4º grau. No caso de pessoas sem grau de parentesco, é necessária uma autorização judicial, exceto para medula óssea.


Por não ter condições financeiras de arcar com um advogado, Mateus buscou a Defensoria Pública do Amapá (DPE-AP). “Entramos com um pedido de Alvará Judicial para autorizar o procedimento cirúrgico”, explicou a defensora pública Marcela Fardim, que atendeu o caso.


No início deste mês última terça-feira, 8, o pedido foi atendido pelo juiz Diogo Sobral. Após essa decisão, Mateus deve viajar novamente à São Paulo para realizar a cirurgia. “Eu gostaria que as pessoas fossem em uma casa de apoio e conhecessem as histórias”, deseja o doador. Para ele, essa seria uma forma de alcançar novos doadores. “São muitas crianças que perdem a vida toda que tinham pela frente”, desabafou.



*Reportagem produzida na disciplina de Redação e Reportagem II ministrada pelo professor Alan Milhomem.

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