• Lorena Lima

Campanha ‘CAPS Gentileza Sem Teto’ mobiliza a população no Amapá

Redes sociais são a principal ferramenta de manifestação da Casa de Atendimento Psicossocial


Imagem campanha CAPS Gentileza Sem Teto. Foto: Instagram @capsgentileza

O Centro de Atenção Psicossocial Casa Gentileza, localizado na Avenida Mãe Luzia, 994 no bairro do Laguinho em Macapá, realiza denúncia nas redes sociais com a hashtag #CAPSGentilezaSemTeto. Atualmente a campanha no Twitter, Facebook e Instagram (@CapsGentileza) mostra para sociedade a situação da estrutura do prédio, que oferece risco de vida para funcionários e pacientes.


A psicóloga Alline Leite Borralho, que integra efetivamente o Caps Gentileza desde 2013, elucida que a campanha do CAPS Sem Teto é um grito/pedido de socorro desesperado da equipe. Segundo a psicóloga: “a equipe tenta há anos formas dos trâmites do governo,serviço público, trâmites formais via documento, solicitação, tentamos e não é de hoje”. O prédio não recebeu nenhuma reforma desde a inauguração em 2013. Uma fonte anônima também afirmou que o prédio está deteriorado e com falta de manutenção.

Forro rachado. Foto: Arquivo CAPS

Adriele Sussurana, psicóloga do CAPS psicanalista e mestranda em Psicologia pelo PPGP/UFPA, afirma que o prédio está para cair. “Há muito tempo a Secretaria de Saúde do Estado tem ciência da situação do CAPS em termos oficiais, a equipe já visitou, mas infelizmente as promessas de que vai mudar não vão para a frente, a casa continua oferecendo riscos e sendo insalubre tanto para os pacientes quanto para os funcionários”, explica.

Aline Leite reforça o quão perigosa é a atual instalação do CAPS Gentileza. “Quando esses pedidos são feitos, esperamos retornos. A casa na qual fazemos uso tem pavimento e vidros que oferecem risco aos clientes, as janelas não eram gradeadas em cima e nem tinham telas, oferecendo riscos para os clientes. Há anos havíamos solicitado ajustes na estrutura desde o começo. Alguns ajustes foram feitos e atenderam há mínimas necessidades, os ajustes continuam sendo necessários. Entra e sai governo e gestão e continuamos sem resposta”, lamenta a funcionária.

Entrada interditada. Foto: Arquivo CAPS

A Defesa Civil interditou o prédio e a área da frente está com risco de desabamento. A área de trás é o local onde aconteciam os grupos de acolhimento, porém o acesso pela lateral do prédio também possui risco de desabamento. Os atendimentos seguem ininterruptos, sendo realizados em tendas, cedidas pelos bombeiros, no lado de fora do prédio.

Atendimento realizado na tenda, do lado de fora do prédio. Via Instagram @capsgentileza

"Historicamente os servidores da saúde tem essa busca de reivindicação e luta pela estrutura básica. Essa campanha é um apelo de urgência para que a população conheça nosso trabalho, conheça nossa necessidade e atenda isso. Quanto à equipe, fizemos um chamamento à equipe e aos familiares, apelo à sociedade e a partir de então estamos sendo ouvidos e atendidos, confirmando que vamos mudar de prédio, mas o prédio ainda não foi definido” comenta a psicóloga Alline.


Mesmo com a COVID-19 e a interdição da Defesa Civil, a Casa Gentileza oferece de segunda à sexta, de 8h às 18h, com consultas médicas, serviço de farmácia, atendimentos psicológicos individuais presenciais e online, três grupos terapêuticos presenciais na área externa da casa e seis grupos terapêuticos online para diferentes perfis realizados pela equipe multiprofissional como terapeutas ocupacionais, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos. Além disso, são realizadas visitas domiciliares para os casos mais graves ou de vulnerabilidade social e clínica de acompanhamento terapêutico para os casos de desinstitucionalização.

Em meados de 2016 e 2017, segundo as psicólogas, o teto caiu e quase acertou uma paciente. Parte da equipe desceu na escada, o forro caiu e por pouco não a atingiu. Desde lá o prédio precisa de reforma, além dos problemas elétricos e hidráulicos. O banheiro próprio só passou a existir na casa em 2020. Antes os funcionários tinham de usar banheiro do mercado próximo.

Insalubridade do prédio. Foto: Arquivo CAPS

Segundo a psicóloga Adriele, antes da pandemia a Casa era frequentada por cerca de 60 a 80 pessoas por dia. Desde o início da pandemia o índice aumentou 70%, e a solução mais extrema é a pessoa ficar internada e fazer medicamentos pesados. “A pandemia é um fator, assim como a redução do atendimento por não poder fazer atendimento em grupo quanto não poder atender no prédio pois os espaços ficam interditados”. Atualmente eles atendem cerca de 3500 pacientes inscritos e com prontuário aberto.

Adriele ressalta, “há muito tempo a Secretaria de Saúde do Estado tem ciência da situação do CAPS em termos oficiais, a equipe já visitou, mas infelizmente as promessas de que vai mudar não vão para a frente. A casa continua oferecendo riscos e sendo insalubre tanto para os pacientes quanto para os funcionários”.

O CAPS Gentileza atende por dia cerca de 100 a 120 pacientes, filtrando a demanda para transtornos mais graves e severos (pacientes com depressão moderada a grave, transtorno bipolar, esquizofrenia e outros distúrbios psíquicos). São realizados atendimentos individualizados com psicólogos, atendimentos psiquiátricos, vários atendimentos terapêuticos com terapeuta ocupacional, enfermeiros especializados em saúde mental, técnicos de enfermeiros, fonoaudiólogos, além de ter uma proposta voltada para a arte.

Para a psicóloga clínica Thaise Medeiros, o Estado é irresponsável em relação à saúde mental. Para ela, poucos governantes sentaram com o segmento e os profissionais com intuito de entender o processo que deveria ser realizado. “Hoje a gente teve uma reinauguração de um centro para crianças, todavia o público adulto não está tendo a necessidade suprida”. O CAPS Online não tem a quantidade de profissionais capacitados que necessitaria.

“Vi nas redes sociais e acompanho as dificuldades que a saúde mental do estado passa. O Amapá possui uma faixa de 800 mil habitantes, dentro do que é estabelecido pelas normas os centros de atenção psicossocial precisam ser desenvolvidos a partir do número de habitantes. Precisaria ser estabelecido, esquematizado e sistematizado pelo menos 2 Centros de Atenção Psicossocial 24h e em outros municípios, principalmente Santana e Laranjal do Jari”, argumenta Thaise.

Atendimento realizado em tenda. Via Instagram @capsgentileza

“No CAPS Gentileza estão sem local para executar suas tarefas, e isso é inadmissível. O local é uma ferramenta que a gente chama de clínica compartilhada porque são vários profissionais, em uma equipe multidisciplinar que trabalha dentro de um ambiente para fortalecer, reabilitar e ajudar aquela demanda. Vendo essa defasagem, esse descaso e essa dificuldade que o governo traz para realocar o centro é triste e é um absurdo. É complicado trabalhar sem auxílio, sem reajuste e sem ajuda para que a população possa ser assistida” manifesta a psicóloga Medeiros.

Atendimento realizado em tenda. Via Instagram @capsgentileza

Os atendimentos atualmente realizados em tendas são inadequados, pois além do desconforto para os profissionais e pacientes, expõe os mesmos, as/os psicólogas como profissionais e seus pacientes no espaço de fora do prédio. No código de ética da psicologia há o Art. 6º que estabelece “O psicólogo, no relacionamento com profissionais não psicólogos: Compartilhará somente informações relevantes para qualificar o serviço prestado, resguardando o caráter confidencial das comunicações, assinalando a responsabilidade, de quem as receber, de preservar o sigilo.

Secretaria de Saúde do Estado. Foto: Lorena Lima

Diante disso a equipe de reportagem da AGCOM tentou contato com a Secretaria de Saúde do Estado, mas SESA não respondeu o contato. A redação também permanece tentando fazer contato com a Defesa Cívil, que até então não responde o chamado da agência.

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