• Daniele Fernandes

Biocosméticos: produtos que vem da floresta

Associação de mulheres extrativistas do Amapá produz cosméticos a partir das riquezas da Amazônia

Produtos da Associação das Mulheres Extrativistas Sementes do Araguari. Foto: Maria Silveira – Iepé.


Por meio da Associação das Mulheres Extrativistas Sementes do Araguari, famílias ribeirinhas do município de Porto Grande, no Amapá, estão mudando de vida. A associação, criada em 2019, uniu 27 mulheres com saberes tradicionais para empreender e produzir cosméticos feitos artesanalmente. As matérias-primas utilizadas são oriundas de espécies como a Andiroba, Pracaxi, Copaíba, Fava e Breu Branco, retiradas diretamente da Floresta Estadual do Amapá e da Floresta Nacional do Amapá. Essas espécies utilizadas são conhecidas e repassadas através de gerações devido as suas propriedades medicinais e seus benefícios.


Andiroba in natura. Foto: Acervo Associação Sementes do Araguari


Essa diversidade encontrada na Floresta Amazônica e o conhecimento sobre essas matérias-primas fizeram com que esses insumos passassem a ser inseridos também na aplicação cosmética, pois antigamente eram utilizados apenas como remédios naturais. Como consequência, essa nova atividade gera renda e empregos, além de ser também uma alternativa para proteger e manter a floresta de pé, contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico da comunidade e do estado.


Anos atrás, a fonte de renda da maioria das famílias na região do Alto Araguari vinha de um garimpo irregular, que foi desativado em 2007, pois estava dentro da área da Floresta Nacional do Amapá. Após os danos causados pelo garimpo para a natureza e a saúde da população, a atual produção de Biocosméticos passou a ser uma alternativa de mudar essa realidade. Essa nova atividade sustentável visa garantir a qualidade de vida para toda a comunidade e também gera renda.


Junto a outras mulheres da região do Rio Araguari, Arlete Leal, 48 anos, está vendo sua vida se transformar por meio da associação. A produção de cosméticos trouxe outra realidade para toda a comunidade, que antes sofria com os danos causados pelo garimpo. Com a nova atividade econômica, elas produzem e cuidam da floresta.


Arlete Leal, presidente da associação, extraindo breu branco. Foto: Acervo Associação Sementes do Araguari.


“Através da associação, a gente consegue fazer mudanças dentro da comunidade. Se a gente conseguir mostrar para o mundo que a gente pode manter a floresta de pé e gerar renda para quem vive nela, sem destruir, é o nosso objetivo principal”, diz Arlete Leal, presidente da Associação das Mulheres Extrativistas Sementes do Araguari.

As associadas contam também com o apoio de instituições como o Instituto Iepé, Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Assim, conseguiram fortalecer esse trabalho de coleta e produção dos Biocosméticos. Por meio dessas instituições foram disponibilizados alguns cursos e oficinas de capacitações em áreas como movimentação de caixa, emissão de notas fiscais e de comunicação, nas quais as próprias extrativistas demandaram os temas, para que assim pudessem ganhar mais autonomia.

Uma das apoiadoras desde a criação da associação é Terezinha dos Santos, pesquisadora fitoterápica do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do estado do Amapá (IEPA), que repassou seus ensinamentos farmacêuticos através de cursos para as ribeirinhas, e junto ao conhecimento ancestral que essas mulheres possuem, a produção dos Biocosméticos se fortaleceu.

A pesquisadora tem atuado em projetos ligados as áreas de plantas medicinais, principalmente no controle de qualidade da matéria-prima vegetal e saúde pública. “Sempre reitero sobre a importância da orientação desses conhecimentos, para ajudar até mesmo no desenvolvimento socioeconômico de comunidades tradicionais”, conta Terezinha.



Linha de produção. Foto: Acervo Associação Sementes do Araguari


“A nossa vida é aqui desde sempre. Temos um vínculo e um carinho pela natureza e pelo rio, pois nascemos na beira do rio e desde criança a gente anda na mata. A nossa vida é na floresta e poder trabalhar e manter ela de pé nos faz feliz”, relata Rosangela Souza, uma das extrativistas da associação.


Produção

Dentre os biocosméticos produzidos pelas associadas, os sabonetes ganham destaques por conta de seus benefícios e são feitos em média mil sabonetes por mês. O sabonete de Copaíba é um ótimo aliado ao tratamento de acne, atuando no equilíbrio da oleosidade da pele, sendo indicado também como cicatrizante. Já o sabonete de Andiroba, tem ação revitalizante, antisséptica e hidratante, além de ter ação anti-inflamatória. O sabonete de Breu Branco, extraído de uma árvore considerada sagrada pelos povos tradicionais, possui propriedades purificantes e relaxantes.

Produtos da Associação Sementes do Araguari. Foto: Maria Silveira – Iepé.


Esse cuidado com a beleza aliado aos produtos que contenham componentes naturais e sustentáveis vem crescendo e permitindo que os biocosméticos elaborados artesanalmente, como esses da Associação Sementes do Araguari, sejam ainda mais valorizados e reconhecidos. Afinal, os Biocosméticos não são apenas produtos, mas sim uma relação direta entre o respeito ao meio ambiente e ao próprio corpo, evitando o uso de substâncias químicas, testes em animais e outros elementos que a indústria da beleza está habituada a utilizar.

Os produtos da Associação das Mulheres Extrativistas Sementes do Araguari podem ser encontrados no município de Porto Grande e na capital do estado, Macapá, em pontos como: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Sede do Iepé e Casa Colab.


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