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Atuação da Polícia Militar na Unifap

Por Lylian Rodrigues e Fábio Maciel


Núcleo de Esporte e Lazer do Curso de Educação Física vira espaço de conflito entre acadêmicos e PM FOTO: Fábio Maciel

A Polícia Militar (PM) entrou na Universidade Federal do Amapá (Unifap), dia 24 de outubro. O fato causou espanto à comunidade acadêmica. Primeiro, porque não se espera a intervenção da PM no espaço de uma instituição federal. Segundo, porque a PM teria entrado na universidade para tirar um aluno de Fisioterapia da piscina no Núcleo de Esporte e Lazer, do curso de Educação Física.


Ficou a pergunta em todos sobre a possibilidade de a PM atuar no espaço universitário federal. Apuramos junto a Assessoria de Imprensa da PM as condições em que sim, a polícia pode ser acionada e entrar no campus. No dia 24, por volta das 11h30, a coordenadora de Educação Física, Letícia de Carvalho Ferreira registrou ocorrência na Polícia Civil e Militar. “O fato é que a PM foi acionada pela situação de ameaça eminente, risco da integridade física de uma pessoa. Independente de espaço físico, em situação flagrancial, a PM vai atuar. Porque é competência nossa salvar vidas e proteger as pessoas”, esclareceu o assessor tenente Josiagab Oliveira.


O caso que trouxe viaturas para a instituição trata da retirada de um estudante do curso de Fisioterapia que teria acessado sem autorização o espaço da piscina, laboratório do curso de Educação Física. “Não é uma piscina para uso livre de qualquer cidadão, apenas para aulas práticas ou projetos de extensão acadêmico ou de docentes de qualquer curso da universidade, sendo o único caso em que abre para a comunidade, com professores responsáveis servidores da Unifap”, explicou a coordenadora do curso Letícia Ferreira.


Em princípio, casos entre estudantes e professores não parecem merecer a atenção policial ou militar. Entretanto, a coordenadora explicou que a entrada irregular no espaço da piscina já estava recorrente e, além disso, nas abordagens com os estudantes escutava deboche e ofensas, em tons agressivos. “Eles já tinham me ameaçado anteriormente em outra invasão, do Wagner Jorge, aluno de sociologia, na semana passada”, relatou a coordenadora. O acadêmico que entrou na piscina, dia 24, Tiago Tenório, argumentou a necessidade de tomar um banho após o treino de capoeira para continuar as atividades acadêmicas da tarde, na instituição. E a universidade estava (e continua) a ter problemas de falta de água permanente, que dura dias (há meses).


A coordenadora foi chamada por acadêmicas do curso de Educação Física que viram o estudante na piscina. “A gente tava saindo da aula e logo a gente avistou os três, o Tenório, o cara de sociologia e mais um que a gente ainda não conseguiu identificar. Eles sempre fazem isso aqui, de pular a piscina, isso há meses. Tanto que duas semanas atrás, antes de acontecer isso, a gente pegou um deles fazendo isso, até tentaram agredir nossos colegas”, contou Nívea Carvalho, estudante de Educação Física. “Ninguém expulsou ele de lá, só pediu pra ele sair. Ele saiu da piscina xingando a professora, tirou foto dela, dizendo que ia denunciar. Eles vieram pra cima dela, quase agredindo nós duas, porque eu estava na frente dela”, continuou o relato.


A professora sentiu-se ameaçada e com medo por ela e pelas acadêmicas, acionou a polícia. Consta no relatório do oficial, que ao chegarem os policiais na Unifap, o aluno de fisioterapia já não estava mais na piscina e sim no banheiro. Os policiais foram até lá conversar com o aluno que deveria esclarecer o ocorrido. Neste momento, dois amigos do estudante de fisioterapia foram atrás dos policiais, também entrando no banheiro, receando a integridade física do amigo. Segundo Wagner Jorge, “uma das falas do estudante contra os policiais foi que a PM não tem autonomia dentro da Unifap para expulsar estudante. O policial disse que não queria saber do lugar em que ele está porque quem manda é ele e, posteriormente, ele veio com um tapa no rosto do estudante que botou o braço pra se defender. O policial não gostou e desferiu um tiro de 12 em cima dos estudantes”.


Segundo a assessoria, os dois amigos do estudante teriam avançado de forma agressiva para cima da guarnição. “Foi necessário utilizar os meios necessários, que ali naquele momento era o uso do disparo de advertência com a munição de elastano, que é a bala conhecida como bala de borracha, que é o ornamento menos letal, menos letal que arma de fogo. Foi feito o disparo no chão, depois do disparo os alunos correram e ali a ocorrência se encerrou. Os policiais se retiraram”.


Não podemos deixar de se espantar com a ação policial junto à juventude universitária, dentro da instituição, na qual a metodologia educacional não tem diretrizes militares. Foi feito um disparo de bala de borracha, que pode causar ferimentos graves e mesmo perda de visão, por exemplo, caso atinja o rosto de uma pessoa. É importante que a Unifap, por meio do seu Conselho Universitário, regimente definições e normas para a segurança no campus.



Após o lançamento do tiro de borracha e dispersão, os acadêmicos envolvidos no caso com a PM, se dirigiram para a Reitoria. Os alunos de sociologia e fisioterapia fizeram uma queixa na Ouvidoria da Unifap. Durante a tarde, continuou a tensão entre acadêmicos nos espaços da universidade. Acadêmicas de Educação Física garantem terem continuado os xingamentos, ameaças e assédio quando se dirigiam para o Restaurante Universitário (RU) para o almoço. Mesmo lá dentro, estiveram coagidas, com medo e ainda se sentem assim. “um deles levantou e apontou na minha cara ‘ei tu aí, tu tá convidada, de madrugada bora dar um pulo na piscina comigo, quero vocês comigo nadando’, aí entramos no RU eles ainda entraram exaltados gritando, destrataram pessoas. Sentamos numa ponta e eles na outra. Eles continuavam falando, batendo na mesa”, relatou Marlene Yasmim, acadêmica de Educação Física.


No mesmo dia, à tarde, voltaram ao espaço da piscina os mesmos alunos envolvidos no caso com a PM durante a manhã, acompanhados de outros para se manifestar contra a ação da Polícia Militar na Unifap. Às 17h, houve nova ocorrência e novamente a viatura policial esteve na instituição, “não interferimos em manifestação nenhuma, nós fizemos apenas a escolta da professora que estava com medo de sair, retiramos ela do local.


Apenas a professora que se retirou, foi até a Delegacia, registrou a ocorrência sobre a situação da ameaça e essa ocorrência vai ser direcionada para a Polícia Federal”.


A investigação e averiguação ocorrerá na instância da PF. O aluno Wagner Jorge também se sente ameaçado, alegando que fotos foram repassadas para a polícia e alunos de Educação Física que são policiais teriam dito que “dias em que eles não estiverem de fardas, eles vão estar presentes pra ver como a forma de abordagem vai ser diferente”. Maria Eduarda, aluna de sociologia, que esteve na manifestação durante a tarde, também se sentiu coagida e assediada por um acadêmico de Educação Física, no dia seguinte ao acontecimento. Ele a teria chamado para transar na piscina, debocharam e riram dela. Ela fez uma ocorrência e a audiência acontece esta semana, quinta-feira, dia 14.

Também as acadêmicas e acadêmicos do curso de Educação Física fizeram um Boletim de Ocorrência por causa dos insultos, assédios e perseguições para mediação de conflito na 9ª Delegacia de Polícia. Na primeira semana de novembro, houve a primeira audiência, na qual não compareceram os estudantes envolvidos no confronto direto com a PM. Em uma segunda, todos estiveram presentes e como resultado o ocorrido será levado ao Fórum de Macapá.


Entramos em contato com a Assessoria de Imprensa da Unifap para apurar as diretrizes da universidade sobre a segurança e a posição da Reitoria sobre o caso. Até o fechamento desta reportagem, não tivemos resposta.


Os alunos de Educação Física produziram uma NOTA DE ESCLARECIMENTO, segue abaixo o link.


https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2625583847528710&id=100002313623916



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