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Aplicação do ensino à distância é boa alternativa para não perder o ano letivo 2020?

Por Hendrew Rodrigues


Nesse período de pandemia do Novo Coronavírus, muitas instituições tiveram que mudar sua rotina e adaptá-la a uma nova realidade. Algumas dessas instituições são as escolas e as universidades da rede privada de ensino, que optaram pela ‘Educação à distância’ (EaD). Tal medida foi adotada para que os alunos não perdessem o ano letivo de 2020. Mas, uma primeira questão a ser abordada é: será que todos os alunos possuem acesso à internet e computadores?


Segundo consta no site do MEC, a Educação a distância é a modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas, em lugares ou em tempos diversos. Essa definição está presente no Decreto 5.622/2005 que regulamenta o Art. 80 da Lei 9.394/96 (LDB).


Partindo desse contexto, entende-se que o EaD surgiu em decorrência da necessidade em proporcionar educação a um segmento da população que não se adequava aos serviços tradicionais de ensino. Por exemplo, pessoas que trabalham e não tem como fazer suas aulas diariamente no formato presencial de ensino; habitantes de localidades sem polos de instituições de ensino; ou, donas de casa, que não tem como deixar seus filhos com alguma pessoa para ir à faculdade.


Para a Psicóloga Sônia Marques, 43, é necessário que medidas como essas de Educação a Distância não sejam tomadas unilateralmente e que deve existir um consenso entre corpo docente e alunos dessas instituições, “a EAD é uma importante tecnologia para os meios de ensino em todo mundo, mas trazendo para nossa realidade, é necessário que exista um planejamento, porque existem muitas pessoas que não possuem acesso à internet e isso pode desencadear uma frustação a essas pessoas que podem se sentir menosprezadas pela instituição a qual estudam”.


Em decorrência do surto do novo Coronavírus, que pegou de surpresa no inicio do semestre de 2020 todos os setores de indústrias, saúde, mercado informal e de educação, foram necessárias fazer mudanças e até mesmo paralisar totalmente os serviços para seguir as normas sugeridas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e os Decretos Governamentais. Uma das adaptações realizada pelas instituições de ensino privado foi a mudança de aulas presenciais para a Educação a Distância (EaD) para que o ano letivo não fosse perdido. No entanto, essa brusca mudança de plataforma fez com que muitos alunos ficassem prejudicados em sua aprendizagem.


Foto: Arquivo pessoal


Este é um drama enfrentado pela acadêmica Jaqueline Cardoso de Sousa, 22, que está no 2º semestre do Curso de Direito no Centro de Ensino Superior do Amapá – CEAP, que optou por fazer o curso nessa instituição por ser seu sonho de infância e considerar um ótimo ensino. Mas, com essa transição para a EaD, ela passa por dificuldades para realizar suas tarefas “foi um pouco difícil pra me organizar para estudar a distância”, comentou Jaqueline, “a partir do momento que começou a ser a distância a gente teve que entrar em sites e os professores gravavam com slide, mas não é a mesma coisa que presencial porque em sala de aula os professores explicam e a gente pode tirar nossas dúvidas em tempo real e em EaD não, quando a gente faz nossa pergunta lá, e assim que o professor ver ele responde”.


Essa pandemia mostrou um problema a ser enfrentado pelos gestores de instituições e de Secretarias de Educação: a execução de um planejamento emergencial para as atividades escolares de forma a não perder o calendário acadêmico. Ao perguntar para a acadêmica se existia algum planejamento de sua instituição para optarem pela educação à distância, ela respondeu que não existia. “A faculdade em nenhum momento se preocupou com essa situação, se tinha internet em casa e se tinha como estudar, porque acho que o pensamento deles é pelo fato de estudarmos em uma faculdade particular eles acha que todos temos acesso à internet” e finalizou dizendo que é difícil estudar nesse formato Ead por não possuir internet e nem computador. Ela usa o celular para fazer suas atividades e já quebrou a quarentena para fazer a prova da instituição na casa dos outros.


Em uma pesquisa realizada em 2018, pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), que faz parte da nova edição da pesquisa TIC Domicílios com o objetivo mostrar dados sobre a conexão à internet nas residências do Brasil, vemos a realidade em que muitos brasileiros vivenciam diante do cenário tecnológico do país.















Fonte: CGI.br/NIC.br, Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nos Domicílios Brasileiros – TIC Domicílios 2018.


De acordo com a tabela, a comparação de dados dos anos de 2017 e 2018, evidencia que não ocorreu uma grande mudança nos meios de consumo de tecnologias, pois o crescimento da internet se deu pelo fato do consumo em aparelhos celulares e o número de pessoas que não possuem acesso a computadores e internet ainda é um número alto. Trazendo para o momento atual, onde as instituições de ensino buscam aplicar suas aulas por EaD, os dados mostram que nem todos possuem acesso a essas tecnologias de tal forma que a aplicação da Educação a Distância vai aumentar as desigualdades educacionais.


Não há garantias pelas instituições de ensino que todos os estudantes terão acesso à internet para realizar as tarefas diárias do calendário acadêmico. Assim, muitos estudantes com receio de ficarem prejudicados em notas ou faltas estarão sujeitos a quebrar a quarentena para ir a casa de amigos e conhecidos afim de estudar e entrar na plataforma de ensino à distância. As instituições precisam considerar o risco em que colocam os estudantes e a quebra de orientações de órgãos de saúde para a população ficar em casa e não circular.


Diante destas dificuldades, as instituições precisam de planos emergenciais que são elaborados no calor da urgência. Mas, como realizar este planejamento? Podem fazer um mapeamento de quem possui ou não acesso a internet? Como realizar um trabalho diferencial neste processo de Ensino-aprendizagem? Existem diversos casos como o da Jaqueline, de pessoas que possuem dificuldade de cumprir com a carga horaria exigida pela instituição e também cumprir a quarentena.


Para que a EaD funcione, nesses casos, é necessário o compromisso das instituições de assegurar que todos os seus alunos possuam os mesmos direitos. Além dos estudantes, o corpo docente também deve estar preparado e ambientado ao mundo virtual da Educação à Distância. Eles estão? Durante a produção desta reportagem, entramos em contato com o CEAP e a Secretaria de Educação sobre como ficaria a situação das pessoas que não possuem acesso à internet e a computadores para estudar. Entretanto, não nos enviaram nenhuma nota ou explicação.


Algumas instituições de ensino superior da rede pública se posicionaram de forma contrária à execução da EaD, haja vista a preocupação dessas instituições em relação a heterogeneidade de classes sociais que existem nas universidades públicas e que caso houvesse esse ensino online diversos alunos seriam prejudicados por não possuírem acesso a internet. Instituições de Ensino como Universidade de Brasília (UnB); Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) entre outras.


A universidade Federal do Amapá (UNIFAP), através da Pró-Reitoria de Ensino e Graduação, a PROGRAD, se opôs ao EaD e em sessão com o Conselho Universitário (CONSU), suspenderam o calendário acadêmico da universidade para assegurar aos alunos da instituição que fiquem em casa, cumprindo o isolamento social determinado pelos Governos Estaduais e Órgãos de Saúde.


Diante desse cenário, a oposição a EaD vem de diversos setores de ensino, assim como de pais e responsáveis de alunos comentam sobre a ineficácia da internet. Inclusive, professores e pais têm procurado a Justiça para que as aulas à distância não sejam conferidas como aulas regulares e que haja reposição de carga horária após as medidas de isolamento e fechamento das escolas. Não só o ensino superior sofre as preocupações com o ensino à distância. A Educação Infantil tem refletido angústia de pais e mães, assim como elaborações inovadoras para as crianças ficarem em casa e terem acompanhamento escolar.


Quer saber mais sobre os desafios para o Ensino em tempos de pandemia?


Hoje (05/05), ocorrerá as 16h, uma Live em que se debaterá sobre a garantia de acesso de todos os estudantes às aulas e atividades ofertadas pelas redes de ensino. O evento vai começas às 16h, com transmissão pelos Canais do Youtube e Facebook da #JEDUCA. O programa será gravado para caso perca o debate possa assistir depois.

Para mais informações acesse o Link: https://jeduca.org.br/texto/desafio-da-equidade-no-ensino-remoto-e-tema-de-webinario:


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