top of page
  • Foto do escritorAGCom

Além das cicatrizes: A coragem silenciosa na luta contra o câncer de mama

"Nosso estado, infelizmente, precisa de infraestrutura e recursos para garantir que todos os portadores de câncer recebam o tratamento que merecem”, ressaltou Leila.


Por Ana Beatriz Peres


Em uma típica tarde quente de Macapá, cheguei a uma clínica no centro da cidade para encontrar minha entrevistada às 14 horas. Assim que entrei no local, segui diretamente para a sala de infusão, onde eram administrados diversos tratamentos oncológicos. Guiada pelo recepcionista, adentrei a sala. Nela, observei alguns enfermeiros dando assistência a um pequeno grupo de pacientes acomodados em poltronas reclináveis acolchoadas de cor bege.


Na cadeira mais ao fundo, à direita e junto a uma janela com vista para um jardim suspenso, estava Leila Santos, 54 anos, policial militar aposentada. Nascida e criada em Macapá, Leila tem pele negra, olhos castanhos e cabelos curtos tingidos de loiro. Usa óculos de grau elevado. No dia do nosso encontro, estava vestida com uma calça verde neon, uma camiseta estampada e salto decorado com lantejoulas. Seu cabelo estava fixado com laquê.


“Não morre cedo”, ela brincou ao me ver. Retribuí com um sorriso, pedindo desculpas pelo atraso. Com um gesto gentil, indicou que eu me acomodasse na cadeira marrom ao seu lado. Sentei-me ao seu lado, colocando minha bolsa na mesinha de apoio à direita da poltrona enquanto ela estava concentrada no jornal transmitido pela televisão suspensa logo à frente.


Preparei o celular para fazer a gravação e posicionei o celular próximo a ela para começar a gravar. Iniciei a conversa perguntando um pouco sobre o período anterior ao seu diagnóstico e sua atenção em cuidar da saúde. Sem hesitar, ela explicou que sempre fazia exames anualmente para checar sua saúde, mas deixou de fazer no ano da pandemia da Covid-19. Como de costume, fez diversos exames como hemogramas, ultrassonografias e mamografias.


Infelizmente, em outubro de 2021, os resultados dos exames mostraram um nódulo de tamanho considerável na mama esquerda. Logo, ela foi encaminhada para um especialista e foi orientada a realizar procedimentos adicionais para determinar se o nódulo era maligno ou benigno.


Após mais uma série de exames, foi constatado que era maligno. Na última semana de outubro, mês da campanha de conscientização sobre o câncer de mama, foi descoberto um carcinoma na mama esquerda. “É sempre complicado ter que dar notícias difíceis, mas ter que dizer que tinha câncer era sempre doloroso. Nem eu queria acreditar no diagnóstico”, ressaltou.


Ela descrevia, com um humor ácido, como se habituou às variadas reações de parentes e amigos ao descobrirem sua doença. “Alguns me encaravam com pena, como se eu fosse partir a qualquer instante. Havia aqueles que afirmavam compreender, mencionando conhecer alguém na mesma situação, e ainda os que simplesmente desabavam em lágrimas.”


Questionei qual tinha sido a reação mais surpreendente e inusitada que ela presenciou. “O mais bizarro é quando, ao contar sobre o diagnóstico, alguém retruca que perdeu um parente para a mesma doença. É um comentário tão insensível. Já estou num momento complicado e ainda tenho que ouvir isso”, comentou rindo, mas com um evidente tom de desagrado. “É o fim da picada”.


No meio de nossa conversa, uma enfermeira se aproximou, pedindo licença. Ela carregava consigo uma bandeja com medicamentos e seringas. Com uma mistura de profissionalismo e delicadeza, ela aplicou o medicamento sob nossos olhares atentos. Aquela breve pausa revelou uma realidade diária de muitos pacientes oncológicos. Após finalizar sua tarefa, a enfermeira se afastou, permitindo que a entrevista continuasse.


Questionei qual medicamento estava sendo aplicado na hora e ela explicou que fazem parte de um procedimento chamado “Imunoterapia”, que é um tratamento oncológico que busca combater a progressão do câncer ao estimular o sistema imunológico do paciente. Leila também ressaltou que esse só foi um dos vários tratamentos que teve que realizar. “Primeiro tive que passar pela quimioterapia, depois por uma cirurgia para retirar o nódulo e os linfonodos, e depois por sessões de radioterapia”, salientou. “Agora só faço essa imunoterapia de três em três meses para evitar que o câncer volte”.


Solicitei que ela me explicasse melhor o que são esses linfonodos e o porquê precisou retirá-los. Ela explicou que os linfonodos axilares são frequentemente o primeiro local onde o câncer de mama se espalha, por isso seu médico fez uma avaliação e decidiu retirar juntamente com o tumor na mama.


Pedi para ela descrever a sensação depois das sessões de quimioterapia. “Era como se eu não tivesse forças para fazer nada, tinha dias que não conseguia nem levantar da cama. Era dor pelo corpo todo”, falou. “O primeiro dia após as sessões sempre eram as piores. Muita náusea, vômito, dor de cabeça, falta de apetite e cansaço. Era como se tivesse passado um caminhão por cima de mim”.


Questionei sobre como foi custeado o tratamento oncológico e se utilizou algum serviço público durante o processo. “A minha sorte foi ter contratado um plano de saúde antes de saber do diagnóstico, já pensou se eu tivesse que esperar por atendimento público? Muita gente morre esperando por tratamento”.


“É doloroso ver que, no Amapá, muitos pacientes com câncer enfrentam uma luta dupla: uma contra a doença em si e outra contra a falta de assistência adequada. Nosso estado, infelizmente, precisa de infraestrutura e recursos para garantir que todos os portadores de câncer recebam o tratamento que merecem”, ressaltou.


Leila precisou se deslocar até Belém do Pará para conseguir realizar as sessões de radioterapia. “Isso é um absurdo. A ausência desse serviço aqui no estado significa que aqueles diagnosticados com câncer precisam, além de enfrentar a doença, lidar com o desgaste emocional e financeiro de se deslocar para outro estado em busca de tratamento. E esse deslocamento, muitas vezes longo, se torna uma barreira adicional no caminho da cura”, exclamou.


Ela acrescentou que se deslocar para outro estado foi muito complicado e desafiador, porque não havia ninguém conhecido por perto e a cidade também era desconhecida. “O tratamento era feito todos os dias no hospital, e enfrentar o deslocamento em uma cidade grande se tornava difícil devido à distância e ao trânsito caótico”, concluiu Leila.


Perguntei sobre as cicatrizes que o tratamento deixou e ela respondeu com uma expressão mista de resignação e determinação: “Muitos veem a cicatriz da cirurgia e pensam que é apenas um lembrete físico da doença. Mas para mim essa marca vai além da pele, é um símbolo da minha resistência”.


Ela continuou, sua voz ligeiramente trêmula, mas firme. “Porém, a cicatriz não é a única sequela. A fragilidade que sinto após o tratamento, às vezes, é ainda mais desafiadora. Mesmo tendo superado a doença em si, ainda lido com os efeitos secundários, como os momentos de fraqueza, fadiga, náuseas, esquecimentos, dores de cabeça e no corpo, entre outros”. Concluindo, ela disse: “Cada pessoa tem sua jornada, e as sequelas variam. O importante é nos lembrarmos de que, mesmo com essas marcas e sensações, somos sobreviventes, e nossa força vem não apenas de superar a doença, mas também de enfrentar e aceitar suas consequências.”


A entrevistada enfatizou como passou a depender muito dos outros, contrariando sua natureza anteriormente independente. Desde jovem, ajudava sua mãe a vender salgados na rua junto com os irmãos. Ao completar 18 anos, começou a trabalhar em lojas no centro da cidade. E, com determinação e preparo, aos 25 anos, foi aprovada no concurso público para a Polícia Militar. Em 2019, completou 25 anos de contribuição e se aposentou.


Ela também recordou a perda de seu pai em 2009, vítima de câncer de próstata. “Desde então, minha família se manteve em alerta em relação à saúde, cientes de que o câncer pode ter componentes genéticos. Foi essa prudência que permitiu descobrir meu câncer a tempo de tratá-lo e curá-lo”, enfatizou.


A entrevistada com uma postura determinada e olhar penetrante, começou a falar sobre sua jornada e as lições aprendidas. “Se há algo que minha experiência me ensinou, é o valor inestimável da prevenção. Nossa saúde é, muitas vezes, algo que damos como certo, até que seja desafiada.”


Também ressaltou que cuidar da saúde não é um luxo, mas sim uma necessidade. Se existe um histórico familiar, a prevenção se torna ainda mais vital. Detectar a doença precocemente não apenas amplia as possibilidades de cura, mas também pode levar a tratamentos menos invasivos.


Após a administração da medicação, a enfermeira se aproximou e, pedindo licença, retirou a agulha do braço de Leila. Em seguida, enquanto Leila se ajeitava na poltrona, abordei a questão da importância da saúde mental durante o tratamento oncológico. Leila enfatizou que a saúde mental desempenha um papel crucial nesse período marcado por incertezas e emoções intensas. “Preservar minha saúde mental foi fundamental para lidar com o estresse e a ansiedade, e para manter uma atitude positiva. Encontrei conforto ao dialogar não apenas com profissionais especializados, mas também com amigos e familiares, como uma forma de desabafar”, destacou Leila.


Ela concluiu com um olhar esperançoso: “Espero que, ao compartilhar minha história, eu possa inspirar outros a tomar medidas proativas em relação à sua saúde. O câncer é uma batalha, mas uma que, com consciência e ação, pode ser combatida antes mesmo de começar.”


Leila calçou seu sapato de lantejoulas e delicadamente levantou-se da poltrona. Pegando sua bolsa, fez questão de se despedir, lançando palavras de gratidão às enfermeiras que cuidaram dela com tanto carinho. Ao virar-se para mim, seus olhos cansados refletiam uma mistura de exaustão e alívio, e seu leve sorriso parecia carregar uma história profunda. Ela expressou sua gratidão, agradecendo por eu ter reservado um tempo para ouvi-la. Emocionada com sua força, eu a envolvi em um abraço caloroso, expressando minha gratidão pela chance de compartilhar sua jornada inspiradora.


Após um mergulho profundo na trajetória de Leila, é impossível não se sentir tocado pela força e resiliência emanadas em cada etapa de sua jornada contra o câncer de mama. As cicatrizes dela não são apenas marcas de batalhas em sua pele, mas também emblemas da resistência de sua alma.


*Perfil produzido na disciplina de Jornalismo Literário, ministrada pela professora Laiza Mangas.




0 comentário

Commenti


bottom of page