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A feira como sustento de famílias do Amapá

Segundo dados do IBGE, o Amapá é um dos estados com maiores taxas de trabalhadores informais da região norte, como a dona Branca - uma das primeiras vendedoras da Feira do Caranguejo.


Por Ilana Moraes e Maian Maciel

Imagem da Feira do Caranguejo em Macapá | Foto: Ilana Moraes e Maian Maciel

O povo brasileiro é conhecido pela sua alegria e perseverança em meio às dificuldades do dia a dia, toda essa garra foi motivo de inspiração para a composição de uma das músicas mais famosas do grupo de pagode Revelação: “Tá escrito”, lançada em 2009 e que faz sucesso até hoje pela letra forte que retrata muito bem a garra do nosso povo.


“Às vezes a felicidade demora a chegar, aí é que a gente não pode deixar de sonhar, guerreiro não foge da luta e não pode correr, ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer”, diz a letra da música.


Imagine levantar todos os dias antes mesmo do galo cantar e ter disposição e simpatia para atender as exigências e demandas dos clientes? Essa é a rotina diária de milhões de brasileiros que trabalham todos os dias nas inúmeras feiras do nosso país, garantindo sempre os legumes, frutas, verduras e alimentos sempre frescos e saudáveis nas nossas mesas.


Por cerca de 35 anos, essa foi a rotina diária da dona Maria Osvaldina Gomes, de 66 anos, uma das primeiras empreendedoras da feira popularmente conhecida aqui em Macapá, como a Feira do Caranguejo, localizada na Rua São José, ao lado do Shopping Popular da cidade. Dona Branca, conforme é conhecida por todos do local, é paraense e se mudou para Macapá há 40 anos, ela sonhava e buscava melhores condições de vida para a sua família.


Ao chegar na cidade, ela trabalhou por cerca de cinco anos como empregada doméstica na casa de uma professora, mas infelizmente a mesma teve que se mudar do estado e a Dona Branca acabou perdendo a sua única fonte de renda. Com os filhos ainda pequenos e totalmente dependentes, ela não podia ficar parada por muito tempo e, nesse exato momento, que a história desta mulher se cruza com o surgimento da Feira do Caranguejo. A jovem mãe de família decidiu “arregaçar as mangas da camisa" e ir à luta no seu novo lar.

Dona Branca na ampliação do novo espaço da Feira em 2022 | Foto: Diário do Amapá

Como diz a letra da música do grupo de pagode, a gente não pode parar de sonhar, guerreiro não foge da luta e foi exatamente isso que a Dona Branca fez, ela se muniu de força e coragem e decidiu abrir o seu próprio negócio no pequeno espaço que se tornou hoje, uma das maiores e mais belas feiras de Macapá.


A jovem senhora relatou que no início a feira era um local pequeno e não gerava boas condições de trabalho para os feirantes, mas ainda sim, ela persistiu e seguiu trabalhando todos os dias, de domingo a domingo, das cinco horas da manhã às seis horas da noite, por cerca de 35 anos. Ela relata que a feira ganhou o nome que tem hoje, devido aos colegas de trabalho que foram chegando depois no local e implantaram a comercialização dos caranguejos, assim o nome ficou popularmente conhecido por todos os amapaenses como Feira do Caranguejo.


Ao longo destes últimos anos, Dona Branca teve que diminuir a sua rotina de trabalho, pois a mesma já possui mais de 60 anos e acabaram surgindo problemas de saúde frequentes nesta faixa etária, o que a impede de estar presente todos os dias na feira. “Eu não tenho condições de estar lá todos os dias, mas as minhas filhas e netas seguem trabalhando na feira e tocando a minha banca. Hoje a gente tem em média três bancas, sortidas de legumes, frutas, verduras, hortaliças, farinha e tucupi, graças a Deus nunca falta mercadorias e trabalho pra gente lá”, afirma a feirante.


Dona Branca explicou emocionada que a feira acabou se tornando muito mais do que um espaço de trabalho para si, foi o segundo lugar que ela conheceu e, em seguida, conseguiu transformá-lo em sua mais nova fonte de renda familiar. “Eu tinha três filhas pequenas para criar e a família estava crescendo, não podia ficar parada e ver as minhas crianças passarem necessidades e foi por isso que fui pra feira. Fui na cara e coragem já que eu não conhecia ninguém lá, trabalhei por dois anos em sociedade com uma senhora que, infelizmente, morreu, mas antes ela fez questão de me presentear com a sua banca e a partir deste momento eu seguir o meu caminho com os meus filhos do lado”, relata Dona Branca visivelmente emocionada ao relembrar o início da sua trajetória dentro da feira.


Hoje ela e a sua família colhem os mais belos frutos que eles plantaram ao longo dos anos de trabalho na feira, a mesma se emocionou ao narrar que hoje ela possui duas netas com o ensino superior, um filho e uma terceira neta que muito em breve deve concluir os seus estudos.


A história da Dona Branca acaba se tornando igual a de milhões de brasileiros que são obrigados a recorrer ao mercado informal no país em busca de melhores condições de vida. Recentemente o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE divulgou que o Brasil possui aproximadamente 38,6 milhões de brasileiros que retiram o seu sustento do mercado informal, isso equivale a 40% da nossa população.


Feirantes e clientes na Feira do Caranguejo em Macapá | Foto: Ilana Moraes e Maian Maciel

Infelizmente, ao realizar um recorte pelos estados brasileiros, a região norte tem uma taxa de mais de 50% de trabalhadores inseridos neste mercado, o que levou o Brasil a se tornar no ano passado o país da informalidade. O estado do Amapá registrou a taxa de 51,4% ficando atrás de estados como: Pará, Maranhão, Amazonas e Piauí que tiveram índices bem acima do esperado.


Esse é um reflexo que o nosso país enfrenta devido à falta de medidas eficientes em áreas como: políticas públicas nas cidades e estados, medidas que estimulem a geração de emprego e renda para a sociedade, educação e principalmente a falta de valorização do trabalhador brasileiro, sendo a classe que mantém este país de pé.


*Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Literário, ministrada pela professora Laiza Mangas.


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